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POLIFONIA

“SALITRE”

O que é uma mixtape?

Antes do advento das tecnologias de gravação em CD/DVD, os aficcionados em música dispunham, como recurso alternativo à compra dos LP’s e EP’s (os famosos bolachões), a confecção de fitas K-7.

Longe do choro das gravadoras, as fitas K-7 já faziam esse trabalho de enfraquecimento da propriedade privada sobre a obra musical dos artistas, na medida em que um vizinho, amigo, ou alguém que possuía o disco original, gravava, através do seu aparelho de som, fitas, que podiam ser reproduzidas à exaustão, ainda que com perdas significativas na qualidade do som. Igualmente, havia o hábito de deixar uma fita “no ponto”, para gravar aquele sucesso que rolava nas rádios, a fim de ouvi-lo sempre que se quisesse, em casa, no carro, ou nos walk-mans.

Com a chegada das mídias em disco (CD’s, DVD’s), ficou por um momento, mais complicado de se realizar esse tipo de gravação. Mas logo, o próprio mercado e a astúcia dos ouvintes deram cargo de transportar o hábito das fitas cassetes para os CD’s.

O mercado entrou com os equipamentos para reprodução e cópia de CD’s em mídia virgem, que hoje em dia pode ser adquirida por menos de um real. A internet possibilitou que, ao invés de comprar o CD original ou esperar que a música toque na rádio, se possa simplesmente baixar uma faixa ou um CD inteiro, ou quem sabe até a discografia de um artista ou banda (uma fita K-7 comportava apenas uma hora de gravação). A possibilidade de gravação de dados em escala sempre crescente colocou em perigo a relação de exploração feita pelas gravadoras, que passaram a reclamar e combater juridicamente os usuários.

Ainda assim, a mobilidade e praticidade do mercado informal da música atraiu mesmo artistas que pretendiam escapar a essa ordem tradicional de exploração via gravadoras. Hoje, sites como o Last.FM e o MySpace são verdadeiras minas, onde os garimpeiros musicais procuram o seu tesouro.

Diante de tanta praticidade, resta ao internauta o trabalho intelectual de produção. As novas fitas cassete, ou mixtapes, são feitas nas mais variadas vertentes e temáticas. Há quem faça uma coletânea de determinado artista, para apresentá-lo aos amigos; há quem faça todo um setlist para uma festa temática. E há quem expanda essas possibilidades para outros campos.

MIXTAPE: “SALITRE”

O Polifonia traz ao leitor polifônico uma mixtape operística. Montada pelo DJ @Sobrecomum, ela traz uma coletânea de canções que procuram criar um clima convidativo ao exercício imaginativo. Ele próprio explica:

Salitre é uma mixtape em forma de ópera. A reunião de músicas que caracterizam a lista possui como fio condutor, a história de Perséfone. Uma menina-deusa que foi raptada por Plutão e levada para o inferno. Lá ela teria, segundo a lenda, comido uma semente de romã e se tornado portanto, parte do mundo subterrâneo.

Deméter, sua mãe, era a terra e ao saber do sequestro, se esterilizou, se entristeceu, e a dor foi tão grande que nenhuma erva nasceu na primeira era glacial que se tem notícia.

Zeus, líder dos olimpianos, ao ver que os mortais sofriam castigos horríveis, tentou resolver a situação da menina, que já não pertencia ao mundo superior, e nem poderia viver no mundo inferior. A solução encontrada foi a guarda compartilhada. A cada seis meses Perséfone trocava de casa e assim podia passar metade do ano com sua mãe e metade com seu marido.

Como o macrocosmo espelha o que acontece no microcosmo e vice-versa, tomemos por base não as estações do ano a que se refere o mito, mas o sal diluído nos oceanos.

Observando uma salina, podemos ver que essa relação materna entre o sal e a água separados por um parto contínuo, é refeita dentro de cada célula do corpo dos seres humanos. Chamam de bomba de sódio e potássio. A água busca o sal, a reconciliação com o mar, a volta para casa da filha sequestrada. Uma célula pode secar completamente se a concentração de sal for maior na parte externa, como a mãe que se entristece e chora. Ou, ao contrário, pode explodir por excesso de amor, tão inflada de água e sal até que sua membrana não suporta e se arrebente.

O potássio, encontrado em batatas, atua como Zeus e ajuda a acalmar esse instinto primitivo, passando de fora para dentro da membrana na tentativa de dar equilíbrio para a relação.

- “Agora fala isso cantando”.

Nas 21 canções, você acompanha a menina-deusa passeando no campo, sendo sequestrada e retornando para a superfície de volta aos braços de sua mãe.

Clique na imagem para baixar o arquivo 

Salitre – Mixtape by @Sobrecomum

Setlist:

  1. Devendra Banhart – A Ribbon
  2. Kings of Convenience – The Girl From Back Then (Riton Remix)
  3. Colonel Bagshot – Six Day War
  4. The XX – Crystalised
  5. Think About Life – Slow-Motion Slam-Dunk From The Free-Throw Line
  6. Beirut – Scenic World
  7. Chavela Vargas – Esta Noche
  8. Muse – Feeling Good
  9. Placebo – Hardly Wait
  10. Marina – Cabeça Dinossauro
  11. Analfabitles – Magic Carpet Ride
  12. Hot Chip – Boy From School
  13. Neko Case – People Got A Lotta Nerve
  14. Michel Polnaref – La Poupee Qui Fait Non
  15. Slumber Party – I Don’t Mind
  16. Pomplamoose – Mister Sandman
  17. She & Him – Gonna Get Along Without You Now (Skeeter Davis)
  18. Ludov – Mecanismo
  19. Fiest – My Moon My Man
  20. Kings Of Convenience – Cayman Islands
  21. The Ting Tings – Traffic Light

Trilhas de algumas trilhas:

Como se pode perceber, o disco é uma coletânea. Coleta, seleção. Mas é igualmente mistura, junção, sínteses disjuntivas. Músicas antigas de bandas não tão antigas.

Na faixa nove, por exemplo, a banda australiana Muse regrava “Feeling Good”, numa versão interessante. A mesma música foi gravada em 1964 por Nina Simone, e o Muse segue o rastro.

O Kings of Convenience aparece numa faixa remixada, o que é novidade para o grupo. Já o Colonel Bagshot aparece numa versão que não alcançou tanto sucesso, e ficou mais conhecida pelo seu remix, feito pelo DJ Shaddow, e cujo videoclipe foi feito pro Wong Kar-Wai, cuja câmera faz sucesso pelas bandas do mainstream.

Na faixa 11 aparecem os analfabitles, que é uma banda brasileira que apareceu surfando em outras ondas, enquanto a turma da jovem-velha guarda ficava no tatibitate do iê-iê-iê.

The XX é um quinteto inglês, que segue a sina dos seus conterrâneos, e faz mais sucesso entre os americanos. Já o francês Michel Polnaref aproveitava o ritmo da língua para cantar e encantar as fêmeas mundo afora. Foi mais amante que cantor.

Beirut é uma banda que se quer polifônica, mas não escapa à amarração 4×4 rock-pop-pop, como diria Tom Zé. O que não inviabiliza, bom que se diga, o seu ouvir prazeroso. No mais, o leitor-ouvinte poli vai descobrindo e produzindo com seu ouvido-território…

POLIFONIA: “Tom Zé – No Jardim da Política (2004)”

Semanalmente, sem dia certo, você encontrará aqui neste blogue a coluna “Polifonia”. Trazendo sempre uma música, um músico, um conjunto, uma banda, um som… E hoje:

 

UM PASSEIO NO JARDIM DE TOM ZÉ

Não é por acaso, no caso de Tom Zé, que a rima amor se dê imprescindivelmente com humor.

Dotado de um senso ímpar para colocar sob as rimas curtas uma explosão expressiva de dizeres e saberes, recheados de humor e fina ironia, o baiano de Irará não dá ponto sem nó.

Lá pelos idos da década de 80, Tom Zé fazia o que, naqueles tempos, lhe restava do ponto de vista do mercado brasileiro da música. Enquanto tropicalistas e muitos artistas puxavam o freio de mão e se esbaldavam nos contratos com gravadoras, Tom Zé sobrevivia de pequenos shows, em sua maioria em espaços acadêmicos universitários, donde mal dava para pagar as contas. Pensou até em retornar à sua Irará, donde poderia largar o violão e assumir outro instrumento: a bomba de combustível do posto que a família tem na cidade.

Felizmente para ele e para os que ainda não tinham ouvido o galo cantar, o vira-latas brasileiro ainda não se viu como raça em igualdade de condições, e adora se ver através do espelho do olhar do outro, principalmente se esse outro carrega um juízo de valor que ele – o brasileiro – atribui superioridade.

Assim, bastou a David Byrne conclamar ao mundo a genialidade de um músico brasileiro, para que Tom Zé fosse “descoberto”. Mesmo que para isso, Byrne tivesse de dar uma ‘agulhada’ na indústria fonográfica e na cultura musical brasileira que, felizmente, não se reduz ao embotamento afetivo-racional caetanista.

Aí Tom Zé pirou, e começou a jogar, convidando o público para jogar. Para desespero da classe média, que boicotou o excelente Jogos de Armar, por causa de um ‘puta que pariu’ na letra. Puta que pariu, Brasil!

No registro fonográfico que o Polifonia traz hoje, o leitor, caso ainda não conheça, pode sentir a verve humorística e o fio do corte da língua tom zeferina. Justamente naquele longínquio 1985, sem o qual não entenderíamos o atual 2010, Tom Zé já adiantava muito do que se vê hoje por aqui, na política e na cena brasileira musical, em geral.

Verdadeiro desfiar dos costumes de então – e por que não, do porvir – o documento gravado na Lira Paulistana em 1985, com o parceiro Charles Furlan nas cordas, e colocando o país nas cordas, no momento em que a euforia esconderia o day after de uma ditadura que ainda nos anos 10 do século XXI, insiste em permanecer como subjetividade predominante nas instituições políticas, policiais, militares e midiáticas, dentre outras.

“SOCORRO, A CENSURA ACABOU”

Quando este show estreou no Lira Paulista, numa quarta-feira, a Censura Federal, órgão da Divisão de Diversões Públicas, adorado pelos artistas engajados, estava em plena vigência.

Quando fizemos a gravação, na última récita do sábado, terminando a curta temporada, a cuja já havia sido extinta.

"A censura acabou!" foi uma repetida manchete na imprensa.

Restituída a liberdade de Clio, Calíope, Terpsicore, Erato e das outras todas musas filhas de Mnemosine, na fase histórica chamada de "abertura", esperava-se ver o país regurgitando arte. Foi uma decepção.

Ah-pois, senhores. Aqui está este Jardim da Política, com uma leve cor de documento, a voz crua procurando o porto dos bordões lá onde se guardam as canções desprotegida em sua nudez, quase a palo seco, como lembra João Cabral.

Antes que a inteligência nacional me desinterprete, a canção Classe Operária é uma "reductio ad absurdum".

Tom Zé, sobre o disco “No Jardim da Política”.

Ficha Técnica:

Voz e violão: Tom Zé e Charles Furlan.

Abertura: Tom Zé e Gilberto Assis.

Restauração Fonográfica: Paulo Tatit e Alê Siqueira (Salamandra Studio).

Projeto Gráfico: Eduardo Campos, Rogério Cipolla, Welinton Bastos, Francisco Guimarães.

Fotografia: Luiz Luppi, Kleide Teixeira.

Consultora de Repertório: Neusa S. Martins

Assistência de Produção Gráfica: Luciana Cenci, Maria Solange Silva e a turma do Atitudes Musicais.

POLIFONIA ESPECIAL – tom zé: “A Mulher Sou Eu Mesmo”.

Ainda sobre a condição da luta das mulheres – que não é só delas! – não se pode ficar apenas num entendimento jurídico de direitos ou psicológico de comportamentos e costumes. É preciso ir mais além e operar no plano das relações com os signos, os valores, os afetos.

Daí, este Poli oferecer, para uso como ferramenta pedagógica em quaisquer planos da chamada sociedade do consumo, este disco. Nele, Tom Zé, ao mesmo tempo em que revela o Pagode como sintoma da miséria cultural brasileira (um tapa de pelica na orgulhosa cultura musical braziniquim), trata de mostrar pedagogicamente como a mulher tem sido construída de acordo com o padrão masculino-hominista-ocidental.

Abaixo, segue a transcrição do texto que abre o CD, e que permeou os estudos de Tom Zé na confecção do disco.

Clique para baixar o CD.

Clique para baixar o encarte.

NA HISTÓRIA

  • Associação de dor com sexualidade e característica das sociedades de dominação.
  • Na pré-história os homens reagem à escassez de alimento ou de recursos se unindo, excluindo as mulheres das cerimônias de poder masculinas. Voltando a agressão contra elas.
  • Na Europa pré-histórica apareceram os indo-europeus de Kurgan, pastores. Foi o fim de uma civilização de parceria. Surgiram culturas nas quais valores “femininos” foram destruídos. Converteram-se em sociedades nas quais a guerra “heróica" e o governo de uma pequena elite masculina, governo da força e do medo, passaram a ser a norma.
  • Esse pastoralismo nômade instala-se em terras inférteis ou tornadas Inadequadas para a agricultura. Mas ele não e só o resultado de ambientes inóspitos: também causa o ambiente inóspito.
  • Usa, como tecnologia, a escravidão de seres vivos, de animais, do que produzem. Animais são domesticados, desde pequenos até a idade adulta e, depois, são mortos e devorados.
  • O pastoralismo não conduz necessariamente à escravidão; e povos agricultores também eram escravistas – tribos primitivas da África ou estados como Atenas e a América do Sul dos séculos 18 e 19.
  • É afastada, é evitada a empatia ou o amor por criaturas que devem ser mortas. O que pode explicar a insensibilização diante de emoções mais sutis, que caracteriza a sociedade de dominação.
  • O treinamento de oficiais nazistas da SS incluía a criação de filhotes de animais que alimentavam, com os quais brincavam, dos quais cuidavam. Depois, matavam-nos sem demonstrar emoções.
  • Se habituados a viver de animais escravizados como única fonte de subsistência, habituamo-nos a admitir também a escravidão de seres humanos.
  • Da supressão de emoções delicadas resulta uma perda de humanidade, e uma redução da capacidade de responder a outros afetos que não a raiva, ao desrespeito e as emoções "duras”.
  • Sofrer a dor, no homem, é coragem; na mulher, masoquismo. A sociedade de dominação criou esse conceito.
  • O escravismo vê metade da humanidade como peças de propriedade a serem controladas. E a escravização e abate de animais para subsistência também fundamenta a visão da mulher como procriadora ou tecnologia sexual reprodutiva. Como propriedade do homem, cuja sexualidade tem como função ser controlada e servir aos "proprietários" homens.
  • Ainda hoje, entre certos povos tribais, o amor sexual entre casais e considerado – correntemente, aliás – um perigo para a preservação das hierarquias do poder masculino. Entre beduínos egípcios, por exemplo, o amor sexual é desencorajado. Desejo e amor são equiparados a dependência – inimigos da independência, o valor mais ligado à honra.

Riane Eisler, em O Cálice e a Espada (editora Via Optima, Porto, Portugal, 1998) e O Prazer Sagrado – Sexo, e Política do Corpo (editora Rocco, 1996).

Ressalvadas certas proposições da autora, em O Cálice e a Espada é dlscutida a importância que assume atualmente a investigação histórica da civilização pré-patriarcal da antiga Creta. As descobertas, interpretadas por arqueólogos, antropólogos e historiadores, modificam opiniões que tínhamos como definitivas. Cultivávamos a lenda de um matriarcado; porém, do passado remoto emerge a evidêncla de que naquela cultura os papeis e identidades sexuais diferentes não equivaliam necessariamente a nenhuma cisão, nem a uma hierarquia de dominação.

O direito de haver diferenças é uma discussão espinhosa, mas este livro é uma fonte na qual encontramos a exposicão de uma pesquisa extensa, que sobrevive a algumas opiniões do texto. Em grande número de leituras comparativas, mais evidentes, conhecidas e difundidas, não encontramos essa específica direção de pesquisa.

Resta para nós uma aposta pascaliana, a coragem de escolher essa utopia.

Tom Zé.

POLIFONIA

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O MANIFESTO ORWELLIANO DO PINK FLOYD

O filósofo Esopo não tinha interesse algum em humanizar os animais. Apenas utilizou-se da potência imagética que os humanos, numa composição cultural com a natureza, deposita nos outros habitantes do planeta, para fazer ver, pedagogicamente ao próprio homem, o quanto ele pode ser, numa licença à palavra, “animalesco”.

Pela ludicidade da imagem do animal – esta que é, também, uma produção nossa – não apenas o pedagogo grego, mas também, e com fórmulas diversas, a cosmogonia de povos de praticamente todo o planeta, está povoada de animais humanizados, de imagens simuladas dos animais, que cumprem a função de mostrar, pelo reflexo, o homem ao homem.

Aos animais pouco se dá; até hoje não consta que sejam portadores das afeções/ideias que os homens produzem como falsificação do mundo. É, portanto, pelo exercício do antropomorfismo que se dá a inserção de tais figuras nas narrativas, sejam elas pedagógicas, cosmogônicas ou mesmo do imaginário popular.

Há até certas identificações, clichês que foram sendo fortalecidos ao longo do tempo. Ideias como a de que o cão é o melhor amigo do homem, o gato é um animal individualista, o rato é cosmopolita, a cobra, pérfida, o porco, sujo e inconsequente. Nada mais do que reflexo da antropomorfização, existente em praticamente todos os povos, cada qual com sua forma e expressão.

O pensamento não é imagem; mas a consciência se faz pela imagem. Afastar aquelas já existentes, a fim de que as novas possam compor novos saberes. Função de uma pedagogia libertadora.

ORWELL E A FAZENDA TOTALITÁRIA

Uma fábula é uma história, um enredo simples, onde as personagens são animais, com características humanas. As fábulas inevitavelmente trazem como pano de fundo um ditame ou fórmula moral, a ser absorvida sub-repticiamente, enquanto se aprecia a história.

George Orwell, nascido Eric Blair, inglês de origem indiana, autor do clássico da literatura política, 1984, faz uma versão fabulística da crítica ao socialismo totalitário como opção ao capitalismo. Como em 1984, na Animal Farm, Orwell é direto. O enredo interessa apenas na medida em que leva o leitor a compreender que, não importa o sistema político, o problema está sempre no vazio do poder e na repetição das mesmas estruturas de exploração do trabalho. Mais que uma crítica a um sistema político, como muitos pensaram, Orwell critica um modo de produção que não sobrevive sem a espoliação da produção do trabalho e a subversão do valor do trabalho à ordem do capital.

No Brasil, existem várias traduções para o livro, que é conhecido como A Revolução dos Bichos. Aqui, o leitor pode adquirir uma versão em PDF, via 4Shared.

PINK FLOYD E OS PORCOS AO VENTO

Se foi publicidade ou não, o fato é que o porco voou. Nas sessões de fotos para a capa do álbum, o enorme porco, inflado com gás hélio, estava preso à central elétrica de Battersea. Sem dinheiro para outro, os Floyds tentaram fotografar mesmo assim, embora não tenha dado certo, e o resultado final tenha sido fruto de montagem em câmara escura. Inadvertidamente ou não, a história promoveu o disco, que nem precisava, na realidade. Mas a ideia do porco ao vento pegou, e os músicos passaram a usar nas apresentações. No Brasil, em 2007, fãs puderam escrever mensagens de protesto, que eram projetadas no balão suíno.

Com estrutura considerada anti-comercial, conta apenas com cinco músicas divididas no LP, sendo a primeira e a última complementares entre si, funcionando como abertura e fechamento. As outras três remetem diretamente à obra orwelliana, e a menor tem mais de dez minutos. Dogs, de 17 minutos, remete à hipocrisia da classe burguesa, que se submete aos valores e hierarquias do sistema capitalista em busca das migalhas que caem da mesa dos porcos:

“Você sabe que vai ficar mais difícil e mais duro, à medida que envelhece

E no final você vai se fechar, voar para o sul

Esconder a cabeça na areia

Apenas mais um velho triste

Sozinho e morrendo de câncer”.

Pigs é mais direta, nos seus pouco mais de onze minutos. Descreve bem o vazio do poder, e o malogro da existência de quem está no topo da mesa. Os ‘porcos’ aqui, como na fábula orwelliana, são os que vivem da exploração alheia. O sorriso enigmático, as trapaças, tudo existe para encobrir o vazio. Na letra, o porco está sempre rindo, mas é um sorriso para encobrir o choro. O suingue da bateria e da guitarra, mais a gaita dão o tom irônico nos arranjos.

Fechando a tríade orwelliana, temos Sheep. Um aviso àqueles que acreditam ser possível passar pelo mundo sem envolver-se e ser envolvido. Àqueles cujo entendimento supersticioso do mundo faz crerem na certeza das coisas, e que sequer desconfiam que estão indo ao matadouro, a cada segundo que passa.

“Inocentemente passando o tempo no pasto

Vagamente atento a um incômodo no ar

Melhor tomar cuidado

Podem haver cães por perto.

Eu os vi sobre o Jordão

As coisas não são o que parecem”.

Enquanto a indústria fonográfica crê que a música tem que se submeter ao tempo, quando é bem ao contrário, o Pink Floyd emoldura as letras de Waters com arranjos belíssimos. O disco é uma crítica ferrenha à caça às bruxas promovida no plano moral por parte da sociedade inglesa, num surto pós-vitoriano, e ao mesmo tempo prenuncia tempos negros para a economia, quando Margareth Tatcher dominaria a cena.

Animals é um dos discos mais politizados de uma banda que movimentou dizeres, perceptos e afectos enquanto esteve na estrada. Depois de The Wall, só Roger Waters se salva…

Clique para baixar

Ficha Técnica:

Disco: Animals – 1977.

Produzido por: Pink Floyd.

Engenheiro de Som: Brian Humprhies

Gravado no Britannia Row Studios, Londres.

 

POLIFONIA

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A GLOBALIZAÇÃO SEM GLOBALITARISMO DE MANU CHAO

En este mundo hay mucha confusión
Suenan los tambores de la rebelión
Suena mi pueblo suena la razón

Quando as primeiras caravelas lançaram-se ao mar, nos idos do século XIV, os europeus, movidos já naquele tempo por uma força capitalista, foram buscar além-mar novos produtos e outras terras que, todos sabemos, eles já sabiam existir.

Para justificar o aniquilamento dos nativos (no caso da América, alcunhados índios), a ciência, a teoria do conhecimento, a teologia, as instituições criaram enunciados para que aquelas pessoas encontradas nas terras onde os “desbravadores” desembarcavam não tivessem reconhecido o direito à posse da terra. Os indígenas se transformaram em gentio, passíveis de escravidão ou morte pela espada. O mesmo se deu com os negros, força de trabalho explorada à exaustão, produtos de um capitalismo de mercado, já global, e que não teria a riqueza que tem hoje sem o sangue e o suor do povo africano e dos nativos americanos.

Na Alemanha economicamente devastada pela primeira guerra, a economia era predominantemente dominada pelos judeus. Um povo reativo, incapaz de se erguer a partir de si próprio, aniquilado pelas forças econômicas e bélicas vizinhas, arrasada pela grande depressão, a quem restou o caminho da extrema direita, o nacionalismo exacerbado, a busca do inimigo no diferente: xenofobia, perseguição, genocídio. Hitler é apenas um rosto no qual os códigos do capitalismo se ordenaram e criaram as condições para a sua irrupção.

A política econômica alcunhada neoliberalismo, que inchou o sistema financeiro e encolheu o estado do bem estar social, aliado aos resquícios de exploração colonial européia na África, e à pobreza dos países do leste europeu, deram origem a uma onda xenofóbica maisclique para ampliar moderna. A mesma que desintegrou países como a ex-Iugoslávia, cuja ruptura até hoje mostra as garras nas animosidades entre sérvios, croatas, montenegrinos, kosovares…

A mesma política de detrimento da economia como provedora das relações humanas, em nome do lucro. Se antes, o inimigo era aquele que habitava as terras que interessavam ao capitalismo, hoje o inimigo vagueia pelas ruas do velho mundo, e é o principal bode expiatório dó fracasso do consenso de Washington.

Berlusconi, primeiro-ministro italiano, disse essa semana que o grande inimigo da Europa é o imigrante: o responsável pela criminalidade. Sarkozy, presidente francês, à época dos atos de revolta de jovens da comunidade imigrante da França, chamou-os de “escória”. Em países do leste europeu, matar um cigano ou um imigrante é ação, na prática, sancionada pelo estado. Na Rússia, na Itália, na Espanha, na Inglaterra, na França, é lugar-comum a xenofobia contra jogadores de futebol negros.

Não obstante, Berlusconi, que aponta o dedo e chama os imigrantes criminosos, é acusado de zil falcatruas, e usa o congresso italiano para aprovar leis que lhe garantam a imunidade contra a justiça de seu país. Sarkozy, que chamou os jovens de escória, é filho de imigrantes húngaros. A tradição cigana vem da mesma região da Europa onde alguns países fecham os olhos para torturas e assassinatos sanguinários deste povo. É a inteligência superior dos brancos de olhos azuis, diria o operário Lula. Ou a manifestação da Besta Loira, diria Nietzsche. O capital não cria apenas a mais-valia do dinheiro e da mercadoria. Cria também, uma mais-valia cultural; pela qual se morre e se mata.

Enquanto a propaganda de uma globalização prega a união das culturas, na superfície as tensões religiosas, identitárias, nacionais e regionais se acumulam, e o mundo vive uma guerra esfacelada, na qual Bin Laden e Bush não são sequer os mais importantes.

PERDIDO NO SÉCULO XX… RUMO AO XXI

Manu Chao, ou José-Manuel Thomas Arthur Chao, é de origem francesa. Fala e canta em francês, espanhol, galego e inglês. Começou a aparecer musicalmente com o Mano Negra, banda de punk rock cujo nome foi tirado de um coletivo anarquista espanhol.

Em 1992, o Mano Negra excursionou pela América do Sul, a bordo de um navio, e acompanhado de um grupo circense. A bordo deste navio, fizeram toda a costa da América Latina, e terminaram no Rio de Janeiro, em plena Eco’92, onde a banda tocou com Jello Biafra, do Dead Kennedys. Em 1995, Manu Chao topa com uns conhecidos e monta a Radio Bemba Sound System, mais regueira que punk, e vai aos poucos deixando a sua banda anterior. Roda, sem rumo certo, pela América do Sul, apenas com o violão inseparável. Desta viagem, pinta o disco que o Polifonia traz para o leitor.

CLANDESTINO (VIRGIN, 1998)

Chao e o jogador de futebol Lilian Thuran. Dois clandestinos em uma França que esqueceu que a sua força vem da diversidade.

O disco traz uma batida regueira, e letras que falam e expressam um multiculturalismo que passa longe da trama marketística do capitalismo financeiro internacional. A faixa-título traz o tom do disco. Clandestino, ilegal, o imigrante que é perseguido, perdido na Babilônia e que, no entanto, é o responsável pela riqueza daqueles que o perseguem.

Humor, alegria, toques sociais, o disco é tocável em qualquer festa, sem perder sua força política. A batida regueira reencontra a sua força, há muito perdida em uma Jamaica xenófoba e homofóbica, com Chao cantando em galego, francês, um inglês carregado no sotaque, e em espanhol. Chao não oculta suas preferências e suas bandeiras de luta. Fala do imigrante, dos movimentos sociais, da ecologia (Pacha Mama), da maconha, do amor, da alegria e da luta. Mistura à batida do reagge os sons do punk rock, do mambo, da rumba, dos ritmos latinos, do folclore andino. É a festa do engajamento e a alegria que marcam a revolução pelo afeto!

Recentemente, Manu Chao se manifestou a favor do Haiti, com uma lucidez que deixaria muita Madona e Bono Vox envergonhados, se capacidade marxiana para tal o tivessem. Citando um artigo de Pete Hallward, do The Guardian, Chao afirmou que a melhor maneira de ajudar o Haiti é cessar as tentativas de controle político e de manutenção de um estado de miséria econômica gerado pelos países ricos. No último dia 14 de dezembro, Chao esteve com a Radio Bemba em Fortaleza, onde levantou os fãs e aproveitou para lembrar o aniversário de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.

Clique para baixar o CD.

Disco: “Clandestino”.

Artista: Manu Chao.

Ano: 1998

Acessa o site do Mano, maninh@!

 

POLIFONIA

A POTÊNCIA-POVO DO CARIMBÓ DE MESTRE VEREQUETE

Não há cidade sem povo. Embora o sistema capitalístico, cujo modo de produção não captura apenas os objetos para reificá-los numa ordem da equivalência, mas também transforma as relações e os próprios modos de ser, de acordo com a sua inscrição semiótica, tente fazer com que predomine um estado de obnubilação onde a frase “governo sem povo” se faça real, o fato é que, não existindo o povo, a massa enquanto multiplicidade produtora, não há também governo. O que os políticos, aqui e acolá, em quaisquer dos chamados três poderes, ignoram, e por isso são adoradores da dor, corrompidos.

É do povo que surge a riqueza de uma nação, é do enredamento das potências de agir das pessoas, atuando em liberdade, é que se faz uma cidade orgânica, viva, rica e próspera. O que não passa nem perto da imagem fantasmagórica vendida pelos governos de direita e alguns de uma esquerda espectral.

Daí uma cultura ser uma produção que carrega rastros do atuar de um povo, mas não se prende a uma história ou passado, mas engendra virtualmente um modo de existir gratificante, uma eticidade, que aumenta a potência de agir. Nada a ver com o conceito reacionário de cultura do Estado, que classifica, hierarquiza, identifica, atribui valor e escalas de aceitabilidade e moralidade.

Daí o cheiro de creolina da carne bovina rançosa do boi de canga de Parintins, que tantas vezes botou e continua botando sela pra político oportunista ganhar eleição. Ou os “artistas” que submetem a sua técnica – a arte não pode ser submetida – ao sabor do vento das benesses governamentais, desde os que o fazem deliberadamente, até os que, pela dor barrigal, não vêem outra alternativa senão cair na armadilha de governos que se querem paranoicamente a origem de todo o criar de uma cidade.

CARIMBÓ, BATIDA COM A FORÇA ATIVA DO POVO

Não é o caso do carimbó. Se Lucindo, Cupijó, Verequete hoje são considerados mestres da cultura popular, pelo Ministério da Cultura, é porque o estado veio apenas reconhecer, cumprindo seu papel, o que o povo já sabia.

Carimbó, nome tupi para o tronco que vira tambor e marca, no compasso do batuqueiro, a dança sensual do negro na beira da praia. Aos “curimbós” (um alto e outro baixo) se juntam as maracas e o bater de mãos e pés da roda. A flauta de ébano ou acapú dá o tom, e a festa não tem hora para acabar. A mulher, com uma saia grande, descalça, blusas coloridas, convida o homem para a dança. Ele aceita e entra na roda, com calça e camisas em tons claros, e um lenço no pescoço. A brincadeira começa quando um casal fica no meio da roda, e a mulher coloca um lenço no chão: é a dança do peru, onde o homem tenta pegar o lenço com a boca, ao mesmo tempo em que desvia da barra daVerequete e o Grupo Uirapuru, de Marapanim. saia da mulher. Se for pego, o homem deve abandonar o local onde a dança está acontecendo. Se pegar o lenço, leva também as prendas da moça…

Dizem que surgiu lá pela zona do Salgado, em Belém, e desceu rumo à ilha de Marajó. Marapanim, Curuçá, Algodoal, Bragança, Salinas, Marajó, são terras férteis para grupos tradicionais de carimbó. Como outros ritmos tradicionais, o carimbó sofreu alterações. Lá pelas bandas dos anos 70, ganhou arranjos eletrônicos e deu origem à lambada e o zouk. Dessa vertente, o conhecidíssimo Pinduca é o maior expoente.

O Carimbó é considerado Patrimônio Imaterial da Humanidade e Patrimônio Cultural Brasileiro. Diferente do que pensam os globalizados críticos de uma música esvaziada, o Pará hoje é o estado brasileiro que engendra uma fertilidade sonorística singular, que foge do padrão pasteurizado do axé-pagode-sertanejo, ou como diria Tom Zé, do rock-pop-pop.

“CHAMA VEREQUETE!”

O Carimbó não morreu, está de volta outra vez.
O Carimbó não morreu , está de volta outra vez.
O carimbó nunca morre, quem canta o carimbó sou eu.
O carimbó nunca morre, quem canta o carimbó sou eu.
Sou cobra venenosa, osso duro de roer.
Sou cobra venenosa, cuidado eu vou te morder.

Augusto Gomes Rodrigues é apenas um homem com um chapéu de vaqueiro, que costumava ganhar a vida vendendo churrasquinho na porta do bairro onde vivia, o Guamá. Mas, na roda de carimbó, a identidade se desfaz, e ele encontra-se Mestre Verequete. Natural de Careca, comunidade próxima à vila de Quatipuru, em Bragança, Verequete carrega no corpo a maleabilidade do negro, a alegria do índio, a força do brasileiro que transforma esteticamente o seu fazer em arte, para além da clivagem capitalística.

Sobre a sua biografia, escreveu Karine Jansen:

“Aos 3 anos de idade, Verequete perdeu a mãe, Maximiana Gomes Rodrigues, e mudou-se com o pai, Antônio José Rodrigues, para o município de Ourém, onde começou a desenvolver seus primeiros passos, no terreiro da negra “Piticó”. Aos 12, mudou-se sozinho para Capanema, onde trabalhou como foguista. Em 1940, foi para Belém morar em Icoaraci, antiga Vila de Pinheiro. Arranjou emprego na Base Aérea, onde ganhou o apelido de “Verequete”. Ele mesmo explica o porquê: “Uma moça que eu gostava me levou num batuque. Umas certas horas da madrugada, o Pai de Santo cantou ‘Chama Verequete’. Cheguei no trabalho contando aos colegas o fato. Quando acabei de contar, me chamaram de Verequete. E assim ficou”. Disso, saiu a composição que se tornou uma das mais populares da carreira do mestre… “Chama Verequete”.”

No fim do ano passado, ainda atuante nos shows e brincadeiras de carimbó, Mestre Verequete foi dançar ao som de outros tambores, com a cabocada, pretos velhos, ciganas, pombagiras, anjos e quem mais se achegar na festança que o céu certamente lhe preparara. Claude Levi-Strauss foi nessa também, curtir a alegria dos tristes trópicos.

Verequete foi, mas deixou uma riqueza que jamais poderá ser sequer conhecida por aqueles que abraçaram a corrupção como forma de malogro existencial. Verequete foi (e ainda é) o povo, na sua potência criadora, incapaz de ser capturado e domado pelas forças reativas, e produtor da alegria e do Bem Comum. Não por acaso, as tentativas de conferir a Verequete algum tipo de auxílio financeiro sempre esbarraram na burocracia estatal. Mestre Mundico que o diga! Ele nunca precisou. A alegria, quando brota, é tal como a fonte de um rio: pequena, tímida, mas perene, e na composição com outras, faz o rio-mar. E chama Verequete, maninha!

Baixe aqui o disco “Verequete na Coluna”, de 2005.

 

POLIFONIA

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A ARTE ENGAJADA DE MIKI THEODORATIS E COSTA-GAVRAS

SOPROS DEMOCRÁTICOS NA AMÉRICA LATINA

Quem acompanhou os últimos acontecimentos políticos no Uruguai, presenciou uma cena que, à história da segunda metade do século XX, pareceria irônica e irreal. José ‘Pepe’ Mujica, ex-guerrilheiro Tupamaro, torturado e preso durante 13 anos pela ditadura, eleito presidente pela Frente Ampla, governo de esquerda que tem feito avançar políticas públicas e o desenvolvimento cultural naquele país.

Mujica traz o sopro da liberdade de quem entendeu a existência como um sopro que toma conta do mundo. Ele, que pegou em armas para libertar o povo uruguaio de uma das ditaduras mais sangrentas da América Latina, foi preso, torturado, ficou por dois anos esquecido em um poço escuro, onde, segundo ele mesmo, só sobreviveu porque aprendeu a “conversar com as rãs, ouvir o grito das formigas, e a galopar para dentro de si mesmo”. Mujica pretende um Uruguai cheio de engenheiros, filósofos e artistas. Sabe que um governo não se faz desligado das linhas intensivas que compõem o social. Ele próprio afirma que levou “uma vida para aprender que o poder está nas massas”. Entendimento democrático que passa por uma compreensão das engrenagens de uma sociedade patológica, mas que no entanto, não contaminou com o germe da imobilidade o ex-guerrilheiro que trocou as armas pela suavidade.

No Brasil, as pressões para que se abram os arquivos da ditadura tem provocado arrepios na velha guarda da caserna, e nas sobras da configuração política da época. Na terceira etapa do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), há a previsão da criação da Comissão Nacional da Verdade, fato divulgado no último dia 21 de dezembro.

O anúncio causou celeuma entre os remanescentes da ARENA (partido oficial da ditadura brasileira, nos anos 60-80). Os militares, através do belicoso ministro PMDebista Nelson Jobim, ameaçaram represálias – 45 anos depois do golpe! – e a DEMista Kátia Abreu, do Tocantins, líder da bancada de perseguição aos movimentos sociais ligados à terra, afirmou que o programa nacional dificultará as reintegrações de posse de fazendas invadidas. Em outras palavras, dificultará ações armadas de pistolagem contra os movimentos sociais.

A Comissão Nacional da Verdade terá, no Brasil, papel semelhante à projetos similares em outros países. A Argentina, por exemplo, é modelo de como um país revê de maneira justa e democrática o seu passado obscuro. Lá, até hoje, militares de todas as patentes e torturadores comprovadamente envolvidos em tortura e violação dos direitos humanos vão presos. Não há anistia. Há processos de investigação de paternidade para filhos e netos de guerrilheiros que foram arbitrariamente tomados dos pais e adotados por famílias abastadas. Entre os hermanos, como costumam chamar os brasileiros sequelados e edipianizados aos vizinhos argentinos, as injustiças do período de exceção não ficaram impunes. O mesmo se dá com o Chile, que fez as pazes com o seu passado e puniu os golpistas.

No entanto, também verificam-se que os reacionarismos latinoamericanos tem tentado reafirmar-se. Em Honduras, o presidente democraticamente eleito, Manuel Zelaya, foi apeado do poder à base da metralhadora, e um processo eleitoral questionado pela maioria dos países do mundo elegeu um outro presidente, que não tem poder prático de barganha com outros países, enquanto o verdadeiro presidente se asila na embaixada brasileira.

No Paraguai, o presidente eleito Fernando Lugo recentemente trocou toda a cúpula militar, avisado por grupos paraguaios residentes no Uruguai de que um golpe, nos mesmos moldes hondurenhos, ameaçava tirá-lo do cargo. Na Venezuela, depois do golpe frustrado no começo da década, Chávez tem se constituído, dentro dos moldes da democracia representativa (nove referendos e três eleições limpas) como o maior opositor aos regimes de exceção.

Hoje, como naquela época, as influências nefastas à democracia nestes países advém, sobretudo, do norte. Mesmo com Obama, os EUA não fogem à tradição de fomentar o subdesenvolvimentismo e a subserviência política dos países da América Latina, a quem chamam pejorativamente “o quintal”.

COSTA-GAVRAS E O CINEMA-DOCUMENTO

Com um cinema eminentemente político – todo cinema é político, mas nem todos estão à serviço da política – o grego Constantin Costa-Gavras tem uma biografia de engajamento às questões democráticas e ameaças à liberdade e aos direitos humanos. Aquele que é considerado o seu filme de maior projeção, “Z”, de 1969, narra os abusos cometidos na ditadura grega. A América Latina teve destaque na filmografia de Gavras, que recentemente esteve no Brasil, e elogiou a atuação do governo Lula, a quem atribui o mérito de equiparar-se em peso político internacional aos EUA.

Gavras filmou tendo como temática as ditaduras da AL. Dentre suas obras, destacam-se Desaparecidos, Um Grande Mistério e  Estado de Sítio. É esta segunda obra que toca tematicamente esta coluna de hoje.

ESTADO DE SÍTIO, 1973

Tendo como pano de fundo o sequestro do embaixador brasileiro no Uruguai, Roberto Campos, e o funcionário da polícia norte-americana Philip Michael Santore (vivido pelo belíssimo e talentosíssimo Yves Montand), Costa-Gavras vai costurando a atuação dos grupos de resistência da América do Sul, com enfoque nos Tupamaros, autores do sequestro, Gavras vai evidenciando com a sua câmera, através da linha de ação, a participação maçiça dos EUA no fomento aos regimes militares, desde o patrocínio até a exportação de know-how técnico para policiais e torturadores em geral.

O roteiro, de Gavras e Francisco Solinas, foi feito a partir do real sequestro do embaixador brasileiro pelos Tupamaros, que exigiam a liberação de manifestantes presos em troca da liberdade do embaixador. No filme, os nomes foram trocados, à exceção do nome do grupo Tupamaros e do embaixador (mais informações aqui).

A TRILHA SONORA.

Com forte influência da música andina nos arranjos, a trilha sonora do filme, é composta e arranjada pelo músico Miki Theodorakis. Além de compositor, Theodorakis é político grego, de esquerda, crítico das ditaduras e das políticas intervencionistas dos EUA e de Israel. Países onde não é bem vindo.

Na sua obra, destacam-se as trilhas sonoras para os filmes Zorba, o Grego, e Serpico. Ele atuou politicamente nos conflitos com o Chipre, na cisão entre Turquia e Grécia, e contra a junta militar que governou os gregos (saiba mais sobre ele aqui).

Ficha Técnica:

Trilha sonora do filme "Estado de Sitio", 1973, dirigida por Costa Gavras. Composición y dirección musical: Mikis Theodorakis.

Intérpretes:

Los Calchakis (Héctor Miranda, Sergio Arriagada, Nicolás Pérez González, Gonzalo Reig, Rodolfo Dalera).

Yannis Didilis – piano e outros.

Gérard Berlioz – Percussão.

Pierre Moreilhon – Contrabaixo.

01 Tupamaros

02 Pueblo en Lucha

03 Paola, 11099

04 Libertadores 1

05 América Insurrecta

06 Libertadores 2

07 El americano

08 Hugo (La detención)

09 Tupamaros – Libertadores

POLIFONIA

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UM BANQUETE REVOLUCIONÁRIO!

O Banquete dos Mendigos, do filme Viridiana, de Buñuel.

poetas, músicos, cantores
gente de todas as cores
façam este favor prá mim
quem souber cantar que cante
quem souber tocar que toque
flauta, trombone ou clarim
quem puder gritar que grite
quem tocar apito apite faça esse mundo acordar

(Lupicínio Rodrigues, Um Favor). 

Uma das maiores características da moral buguesa é a necessidade de parecer, em detrimento do ser. Simulação, em detrimento da Produção. Assim, o sistema capitalista se alimenta daquilo que lhe é, à primeira vista, pernicioso.

Essa “compulsão alimentar” se vê também refletida nos modos da burguesia, que tenta se cercar da produção política do povo, sem perceber que seu toque anti-Midas acaba por deteriorar essa produção, territorializando-a numa semiótica paranóide. Daí a possibilidade de enquadrar a arte sob a lógica do mercado e atribuir preço a um quadro,Dominguinhos sem levar em conta os aspectos de produção de afectos e perceptos que ele engendra.

É por isso que, a despeito dos banquetes nababescos do metiér artístico das grandes galerias e dos milionários colecionadores, não há efetivamente o efervescer produtivo, a potência política, não há, efetivamente, banquete. Sequer como o de Platão que, à sua maneira, já era também decadente.

Milton Nascimento Somente o pobre, com a sua força de trabalho, cavando os túneis e enfraquecendo a estrutura do sistema, moldando a produção da riqueza, declinando a ordem binária, criando turbulências na economia global e esfacelando o mercado financeiro, é capaz de se banquetear.

Por isso, Banquete, só o dos mendigos.

OS MENDIGOS EM PLENA DITADURA

Numa onda declinante de fazer um show comemorativo aos 25 anos daJards Macalé Declaração Mundial dos Direitos Humanos, em 1973, os músicos Jards Macalé, Paulinho da Viola, Jorge Mautner, Pedro dos Santos, Edu Lobo, Raul Seixas, Gonzaguinha, Soma, Johnny Alf, Chico Buarque, MPB4, Edilson Machado, Luiz Melodia, Milton Nascimento, Dominguinhos e Gal Costa, resolveram tirar uma com a cara da ditadura. Afinal, como falar de direitos humanos nove anos depois de um golpe militar, e cinco anos depois do Ato Institucional Número 5, que cassou direitos civis e institucionalizou o massacre aos grupos de oposição ao regime fardado?

Paulinho da Viola Ainda que nem todos os músicos envolvidos tivessem ou tenham uma biografia de engajamento às questões de ordem política, naquele momento, a confecção do disco e do espetáculo configurava uma afronta. No entanto, com o apoio da ONU, era impossível aos ditadores impedirem a realização do show.

Ironia fina, o preâmbulo, por Jards Macalé, que abre o show antes doLuiz Melodia artigo primeiro da Declaração: “O futuro deste documento pertence a vocês, jovens. Em comum acordo com os músicos do espetáculo, e eu creio, com todos vocês, eles me autorizaram a ler alguns artigos desta declaração para que ela seja oficialmente apresentada a essa juventude brasileira”.

Claro que a autorização, e o fato de, aos 25 anos de idade, a DUDH não ser conhecida pela juventude brasileira é sinal de que vivia-se num estado de exceção. Parece-nos que, com raras exceções, o clamor da clara e bela voz de Paulinho, passou em branco por este país que ainda elege o ranço da ditadura em forma de partidos políticos à direita.

SOBRE A DECLARAÇÃO

A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) é um documento basilar da Organização das Nações Unidas, ONU, e foi assinada em Raul Seixas 1948. Com aprovação unânime (embora com a abstenção da então URSS, África do Sul e Arábia Saudita), a Declaração é considerado o documento mais abrangente no quesito dos direitos humanos em toda a história. Para efeito de pesquisa escolar, à época, o presidente da Assembléia da ONU era o australiano Herbert Evatt, e o representante brasileiro, que votou a favor da declaração, foi Austragésilo de Athayde, que estava entre os mais vorazes defensores da carta magna, junto com os britânicos, canadenses e vizinho da América Latina.

SOBRE O DISCO

Tijucano, multinstrumentista, estudioso de música, ator, parceiro deJorge Mautner Glauber Rocha, Jards Macalé foi o diretor deste espetáculo, e o grande responsável pelas articulações que permitiram esse disco. Em tempo: mesmo com a pressão da ONU, dona dos direitos autorais, o disco só foi liberado pela censura seis anos depois, em 1979.

Sobre isso, ele escreveu:

Este trabalho começou como beneficência e continua beneficente.

Nós todos, artistas, gravadora, equipe de trabalho da feitura do disco, abrimos mão de nossos direitos artísticos e fotográficos em função de outros direitos que se tornam urgentes: o direito á vida, á sobrevivência. Metade do recolhimento deste disco deverá ser creditado ao centro DAS NAÇÕES UNIDAS no Brasil para ser entregue ao SPECIAL SAHELIAN OFFICE, escritório especial da Divisão dos direitos humanos. Destina-se a regiões da África Ocidental que vem sendo assoladas há mais de seis anus pela seca do complexo geográfico saariano, para milhões de pessoas vítimas inocentes da miséria e fome que destroem especialmente o oeste da Mauritânia e o leste da Etiópia.
Nós da equipe de feitura do disco, devemos agradecimentos a todos os que colaboraram na realização deste documento:

Antônio Muiño ( Diretor do centro de informação das NAÇÕES UNIDAS no Brasil)
Ivan Junqueira (assessor de imprensa do centro de informações das NAÇÕES UNIDAS no Brasil)
Heloísa Lustosa ( diretora do MUSEU DE ARTE MODERNA do Rio de Janeiro)
Cosne Alves Neto (diretor da cinemateca do MUSEU DE ARTE MODERNA do Rio de Janeiro)
Newton Anet (advogado assessor jurídico)
À ODEON por ter gentilmente cedido seus artistas á RCA
À PHONOGRAM por ter gentilmente seus artistas a RCA
À RCA por ter gentilmente cedido sua emprensa para este registro, aos funcionários do Museu de Arte Moderna RJ, aos artistas e músicos que participaram do evento, aos meninos da favela do MORRO DO PINTO, da comunidade de SÃO LOUREÇO e á LITA

Chico Buarque Alternando entre apresentações dos artistas e leitura dos artigos da DUDH, o show todo tem um clima de potência política, enfraquecendo a ordem ditatorial. Os aplausos a cada artigo, sobretudo ao que versa sobre o direito à expressão e liberdade ideológica, mostram uma platéia envolvida com o tema que, nas palavras de Jards, não se reduz à ditadura brasileira. Ao contrário, fala-se do que está distante, para evidenciar aquilo que é próximo.

Desfilam pelos microfones do espetáculo, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Paulinho da Viola, com a forte Roendo as Unhas;Gonzaguinha Jorge Mautner, no Samba dos Animais; Palavras, com Gonzaguinha; Raul Seixas dando o toque com Cachorro Urubu; MPB4 e Chico Buarque com Pesadelo, de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós, Bom Conselho, Quando o Carnaval Chegar e Jorge Maravilha: Milton Nascimento, com Cais; Dominguinhos (antes de virar sanfoneiro do PSDB), com Asa Branca e  Lamento Sertanejo; além do próprio Jards, com Anjo Exterminado e Rua Real Grandeza, dentre outros artistas.

Clique para baixar o disco.

Ficha Técnica do espetáculo:

Direção Geral – Jards Macalé.

Assist. Direção – Ana Maria Miranda.

Coord. Geral – Xico Xaves e Lula.

Assist. de Coordenação – Flor Maria e Beto.

Técnicos de Som – Maurice Hughes e Ray.

Contrarregra – Etny.

Ficha Técnica Disco:

Coord. Artística e Direção – Jards Macalé.

Técnicos de Mixagem – Paulão Frazão e Luís Carlos.

Fotos – Alexandre Koester/Cleber Cruz/Ivan Kilngen.

Direção de Arte – Ney Távora.

 

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SÉRGIO RICARDO: UM VIOLÃO CONTRA A CENSURA

No final de 1968, a ditadura brasileira mostrou as garras e assumiu o seu lado truculento. Com o Ato Institucional No. 5, os direitos civis foram praticamente anulados, e a censura, intensificada. Perseguições, torturas violência, censura, repressão, interdição.

Alguns artistas brasileiros, perdidos no limbo da classe média, inadvertidamente auxiliavam a ditadura, criando uma espécie de falso éden, onde a violência não penetrava. Era a versão braziniquim (assim mesmo, com ‘Z’) dos reis do iê-iê-iê. Roberto Carlos, que hoje é Rei da Rede Globo e das ressentidas noites de Natal de muitos, é sobrevivente desta época.

De outro lado, uma rede de artistas protestava, como podiam, contra o recrudescimento de uma sociedade que se via, anos antes, com as portas abertas ao desenvolvimento e a democracia.

Possivelmente não haja dor maior do que aquela resultante da interdição ao criar. Interdição que se sente ainda hoje, na ditadura civil da mídia domesticada e oscilante, na escola refém da lógica do mercado, do trabalho submetido à ordem econômica financeira, no ranço classe-mediatista que enrijece as relações familiares.

Mas, mais libertador é superar essas condições e criar, produzindo outras territorialidades onde as produções não possam ser capturadas por essa ordem moral. Assim, muitos artistas brasileiros conseguiam produzir, cantar, criar, tocar, dar o recado, por debaixo das barbas do pensamento paralisado do Estado.

Assim foi e é o artista de hoje: Sérgio Ricardo.

LUTANDO CONTRA A ARREBENTAÇÃO

Sérgio Ricardo, nascido João Lufti, em 18 de junho de 1932, descendente de libaneses, compositor e músico, estudioso de piano clássico e teoria musical, passeou pela bossa nova, quebrou violão, cantou o mundo, fez cinema, transou Glauber Rocha, pinta, escreve, poetiza, é teatrólogo e ativíssimo nesta primeira década do século XXI.

Em 1950, assume a vaga de pianista na boate Posto Cinco, que era de Tom Jobim. Fazendo sucesso, ele passa por todas as casas noturnas do Rio de Janeiro, e vai se envolvendo com o pessoal da bossa nova. A cantora Maysa grava uma composição sua, Buquet de Izabel, e ele estoura como compositor. Fez novelas na TV Rio, foi galã, e estudou cinema com Ruy Guerra, na França. No início dos anos 60, incluenciado pelo pessoal da bossa, lança seu primeiro LP, “A Bossa Romântica de Sérgio Ricardo”, totalmente com composições próprias, incluindo o sucesso Zelão.

Através de Chico de Assis (que o levou a participar do CPC, Centro Popular de Cultura, da UNE), e de Glauber Rocha, que operou uma transformação no vozeirão de SR, fazendo-o compor toda a trilha sonora de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, que ganhou vários prêmios.

Mas a situação política do Brasil (e da América Latina) se complicava, as forças reacionárias ganhavam tônus, e Sérgio Ricardo estava no meio do tiroteio, literalmente: depois do histórico discurso de João Goulart na frente da Central do Brasil, pouco antes do golpe de 1964, o então governador do Rio, Carlos Lacerda, mandou metralhar a sede da UNE. Um dos mortos, estudante, caiu bem ao lado de Sérgio Ricardo.

Depois do golpe, as composições de SR ficam cada vez mais diretamente envolvidas no contexto político, e ele lança o LP “A Grande Música de Sérgio Ricardo”, que conta com Brincadeira de Angola (com Chico de Assis), A Praça é do Povo (com Glauber Rocha) e Bichos da Noite. No entanto, as rádios preferem reprisar exaustivamente a fase bossanovista de SR, evitando tocar suas canções de então. Nos shows, de norte a sul do país, no entanto, a platéia acompanha o cantor em todas as canções engajadas

É quando ocorre o episódio que culminaria no disco que este Polifonia traz ao leitor.

A PRAÇA É DO POVO, COMO O CÉU É DO CONDOR

Sérgio Ricardo retorna ao Rio de Janeiro, e convidado por Solano Ribeiro, inscreve a música Beto Bom de Bola no Festival da Record. No entanto, ao tocar a música no palco, Sérgio encarou uma platéia descontente pela desclassificação de uma canção de Jair Rodrigues em favor da sua. Aos gritos e vaias, Sérgio tentava continuar, até que, enfurecido, quebrou o violão e arremessou-o contra a platéia.


Na edição seguinte do festival, em 1968, Sérgio Ricardo foi um dos músicos que liderou a exigência para que houvesse também um juri popular, além do especializado. Neste ano, outra composição sua, Dia da Graça, chegou às finais. Parcialmente censurada, SR podia ser preso caso a cantasse no palco. No entanto, sem pré-concepções, sempre que chegava à parte que a censura proibiu, ele se calava e o côro dos espectadores cantava a plenos pulmões, para desespero da ditadura.

Anos depois, em 1973, quando a ditadura ainda rosnava, Sérgio Ricardo montou um grupo com os músicos Piri Reis, Cássio Tucunduva, Fred Martins, Franklim da Flauta e Paulinho de Camafeu. Com eles, reunidos num estúdio na sua casa, grava um LP intitulado “Sérgio Ricardo”.

A capa do disco chama a atenção da imprensa e da censura: a famosa foto de SR no festival de 1967, quando ele quebrou o violão, acrescida de uma tarja branca, símbolo da censura criada como forma de protesto pelo cartunista Caulos. O cartunista e SR são chamados para explicar o porquê da tarja, e conseguem se safar aplicando um discurso intelectualóide, aproveitando-se da pouca instrução dos censores. No entanto, o disco é proibido de ser tocado em público.

Com doze canções, “Sérgio Ricardo” pode ser considerado uma obra que reúne uma compilação da produção musical mais ácida e anti-ditatorial da década anterior. O disco abre com a famosíssima Calabouço, protesto à morte do estudante Edson Luiz, no restaurante universitário de mesmo nome, em Minas Gerais. Passa também por Sina de Lampião e Antonio das Mortes, que tem o cenário da miséria social e da força do nodestino, traz ainda o lirismo de Em Semente e Na Beira do Cais, e as críticas Vou Renovar e Tocaia, dentre outras. Os arranjos são moderníssimos e revolucionaram a música brasileira na época.

Ainda hoje, o disco carrega uma força ativa que atualiza as letras numa luta contra uma ditadura dos costumes, da estupidez, da interdição e da censura à inteligência e produção livres.

Clique para baixar.

Ficha Técnica:

Disco: Sérgio Ricardo – 1973.

Executores:

  • Sérgio Ricardo – viola, violão e piano.
  • Piri Reis – viola, violão, rabeca e bandolim.
  • Fred Martins – piano e flauta doce.
  • Cássio Tucunduva – flauta elétrica e viola.
  • Frankilm da Flauta – flauta doce e flauta em dó transversa.
  • Paulinho de Camafeu – percussão.

Gravação: SOMIL.

Mixagem: Luigi Hoffer.

Produção: Sérgio Ricardo.

Capa: Caulos, em foto de SR, Teatro Record, 1967.

MAIS…

Site oficial (aqui).

Comunidade do Orkut, moderada pela filha de SR (aqui).

Entrevista de SR, falando sobre cinema, em site do Pará (aqui).

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NEIL YOUNG: NO FRONT DA PAZ

O presidente Bush é responsabilizado por alguns de seus pares do partido Republicano, a direita constituída dos EUA, de não cuidar do quintal, e permitir o aparecimento de algumas ervas daninhas. Traduzindo a metáfora, Bush abandonou a América Latina à própria sorte e a outros predadores, como o FMI, acreditando ser o Consenso de Washington uma coleira eficiente. Não contava com as ervas daninhas Evo Morales, Tabaret Vazquez, Fernando Lugo, Hugo Chávez, Luís Inácio Lula da Silva, vulgo “the guy”. As ervas daninhas ameaçaram chegar às portas da casa grande: na América Central apareceram Daniel Ortega (Nicarágua) e Manuel Zelaya (Honduras). Sem contar, claro, a perene urtiga na roseira estadunidense, Cuba.

Nos estertores da sua malfadada gestão, Bush chegou a reativar a IV Frota, para supostamente patrulhar o Atlântico Sul, e que foi acusado de querer sentir o gosto do Pré-Sal brasileiro. Não funcionou. À exceção de Peru e Colômbia, fiéis defensores da subalternidade ao patrão, a América Latina hoje, com todos os problemas que enfrenta, é soberana. Recentemente, a Bolívia não só reelegeu Evo Morales, como deu maioria ao seu partido na casa legislativa, num país que terá o maior crescimento do PIB do cone sul, quilômetros adiante dos EUA.

O golpe de estado em Honduras, inicialmente recebido de forma titubeante pelo governo do Tio Sam, foi logo aceito, a despeito do restante do mundo rechaçá-lo. O atual governo Obama teria trocado o reconhecimento do “governo de fato” em troca da nomeação de um conhecido para um cargo de alto nível. Honduras é a tentativa do governo em podar o quintal que, nos últimos oito anos, esteve, ao olhar do patrão, abandonado.

Adesivo de carro: "Seja bonzinho com a América, ou nós vamos levar democracia para o seu país".

Tanto que, no último dia 11, a Secretária de Estado Norte-Americana, Hillary Clinton, comentou que as relações entre seu país e a AL ficaram “fragilizadas” após a gestão Bush Júnior. E fez mais: incorporou o velho e odorífico cadáver do imperialismo para ameaçar aqueles que recebessem diplomaticamente o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad em seus países. O recado foi claro para Chávez (Venezuela) e Morales (Bolívia). Os EUA não aceitam que estes países solapem a democracia, alterando a constituição para a reeleição de seus presidentes, e recebam em seu território o presidente de um país que eles consideram fomentador do terrorismo. De quebra, tocou o Brasil, onde a direita midiótica se alvoroçou com a chegada de Ahmadinejad, incluindo aí alguns movimento sociais que não compreenderam que é mais revolucionário o contato do que o isolamento. O presidente Lula, inclusive, recebeu apoio de políticos europeus, pela iniciativa soberana e diplomática de receber o presidente do Irã.

O que Hillary não explica é o porquê da “democracia” estadunidense não tolerar hoje o que já aceitou cândidamente ontem, como a reeleição de FHC, regada à compra de votos, donde participou o nosso atual prefeito sub judice, Amazonino Mendes, o surgimento de regimes francamente contrários às regras da democracia representativa, como as ditaduras da AL e a atual, em Honduras, e permitir que países beligerantes – porém aliados – como Israel e Paquistão, possuam tecnologia nuclear.

Tampouco seu chefe e atual comandante da nação americana, o Nobel da Paz, Barack Obama, consegui convencer alguém além dos votantes do desgastado prêmio de que seu país procura a paz e o ideal de convivência. Numa espécie de atualização da palavra de ordem “Guerra é Paz” orwelliana, Obama mostrou que não basta uma eleição para mudar um país.

SE GUERRA É PAZ, VIVER É MORRER, NOS EUA

A guerra revela o guerreiro.

Em 2009, segundo dados do próprio exército americano, será batido o recorde de suicídios entre soldados nas guerras do Iraque e Afeganistão. Em 2008, foram 140 suicídios. Até novembro de 2009, este número praticamente havia sido igualado, e a tendência é de aumento em 25% até o fim do ano. Este número é duas vezes maior que o índice de suicídio entre civis nos EUA. A maior parte dos soldados cometem-no semanas após terem dado baixa e retornado do front de batalha.

Cerca de 52% dos soldados estadunidenses nas duas guerras sofrem ou sofreram danos cerebrais por conta da explosão de bombas no campo de batalha. Em 90% dos diagnósticos, não há dano visível a olho nu. O dano ocorre devido às ondas de choque promovidas no ar, quando ocorrem as explosões. Elas matam neurônios, e os soldados não conseguem perceber a curto prazo o dano. Somente através de testes cognitivos é possível detectar quais áreas foram atingidas, mas o dano é sempre irreparável e as consequências, imprevisíveis.

Além dos danos neurológicos, um terço dos soldados que retornaram do Iraque e Afeganistão sofrem algum tipo de desordem psíquica. A maioria apresenta stress pós-traumático ou depressão. À maior parte deles, resta apelar para o caro e segregativo sistema de saúde norte-americano. O cineasta Michael Moore, no seu documentário “Sicko”, levou veteranos das guerras com sequelas consideradas intratáveis pelos especialistas americanos à Cuba. Lá, receberam tratamento gratuito, foram curados ou tiveram melhora significativa dos seus males.

Em fevereiro de de 2009, a administração Obama revogou a proibição de exibição de fotos de combatentes mortos nas guerras do Afeganistão e Iraque. Antes, as fotos tinham a tarja preta da censura + 18. Agora, a exibição ou não das fotos, bem como a publicidade ficam à cargo das famílias dos combatentes.

Joseph Dwyer, combatente que se tornou símbolo da campanha de apoio à guerra empreendida pelo governo e pela mídia domesticada estadunidense, por ter sido fotografado em pose heróica, carregando uma criança iraquiana ferida, nos primeiros dias da invasão, foi encontrado morto, por overdose, em sua casa, na Carolina do Norte, em junho de 2008. Pessoas próximas a Joseph disseram que, quando ele voltou da guerra, estava diferente: antes era um homem religioso e sem vícios, e depois, surgiu o alcoolismo, dependência de agentes inalantes e pesadelos que o faziam acordar gritando, e madrugada. Joseph Dwyer suicidou-se com pílulas e spray aerosol.

NEIL YOUNG NO FRONT DA PAZ

Ser pacifista não significa ser pacífico ou passivo. Não desejar a guerra não significa impor a paz a qualquer custo. Menos ainda, abrir mão da razão e deixar de compreender os motivos que levam aos conflitos.

Daí o músico canadense (mas cidadão do mundo), Neil Young, empunhar sua guitarra em nome da paz, e sua pena em nome da discussão dos motivos das guerras norte-americanas.

Nascido quando o barulho das armas da última guerra mundial ainda se podiam ouvir, Young morou em Toronto, sua cidade natal, e Winnipeg, no Canadá. Adolescente, já fazia música, misturando o estilo folk-rock com o country. Entre 1965 e 1968, fez sucesso com a banda Buffalo Springfield, já em Los Angeles. Seu primeiro álbum, em 1969, intitulado Neil Young, fez grande sucesso e é considerado um clássico do rock. Porém, mais sucesso fez o seu segundo álbum, Everybody Knows This Is Nowhere, já com a formação da sua banda de apoio, a famosa Crazy Horse. Neste álbum, músicas como Cinnamon Girl, Down By the River e Cowgirl In The Sand marcaram a discografia do cantor.

O engajamento político lhe rendeu brigas e composições, como a faixa de abertura do disco “On The Beach”, para esta coluna um dos melhores de Young. A faixa, Walk On, é uma resposta ao sucesso do grupo estadunidense Lynryd Skynryd, Sweet Home Alabama, que por sua vez era uma provocação às canções Sotherman e Alabama, do disco anterior de Young, After the Gold Rush. Nas duas canções, Neil criticava a segregação racial existente no Alabama, e em todo os EUA.

Young, sempre solo, com sua banda Crazy Horse, ou em reprise com Crosby Still’s, Young & Nash, fez obras fiéis ao estilo musical e às convicções do cantor, mesmo quando os álbuns musicalmente não estava à altura do artista.

Quando do ataque às torre gêmeas, em 2001, Neil Young foi um dos primeiros artistas a se levantar e chamar a atenção para o papel do governo americano no atentado. Com foco no auxílio às vítimas, Young fez show por todo o país, onde além de tocar, conversava com as platéias sobre o atentado, e a responsabilidade da política externa estadunidense no episódio. Young sempre levantou a bandeira de que as verdadeiras vítimas do atentado foram as pessoas que morreram, os policiais, bombeiros e voluntários que pereceram tentando ajudar, ou que ficaram com sequelas do atentado.

No clima da guerra, e discutindo todas estas questões, Neil Young lançou, em 2006, o álbum Living With The War, que embora esteja cronologicamente datado àqueles acontecimentos, pode tranquilamente ser ouvido hoje, às portas da tentativa norte-americana de ressuscitar o Big Stick para a América Latina. Se continuar assim, Obama pode ser a mais nova vítima da guitarra engajada de Neil Young…

LIVING WITH THE WAR

Vivendo com a guerra traz o bom e velho Neil Young, com a suavidade de quem conhece o terreno onde pisa. O tradicional folk-rock com o peso da guitarra e da batida country soam como uma espécie de ironia: o rock, que os EUA têm de melhor, para falar sobre aquilo que eles têm de pior, a guerra.

O disco abre com a panfletária After the Garden, que pergunta o que o povo vai fazer quando o paraíso se for, e brada que não precisa de governantes que agem à sombra. Em seguida, a batida rock vem com metais acompanhando, na faixa título, Living With The War. Um coro, que acompanha Neil, o baixista Rick Rosa e o baterista Chad Cromwell, canta estou vivendo com a guerra todos os dias em meu coração. A canção que segue, The Restless Consumer fala sobre a dependência americana do petróleo, real motivo para a invasão do Iraque, com o refrão poderoso, não precisamos de mais mentiras. A próxima, Shock and Awe fala dos mortos, da visão aterradora das crianças mortas em ambos os lados do conflito onde ninguém vence. Families mostra que a democracia é querer para a todas as famílias aquilo que queremos para a nossa. Flags of Freedom ironiza o sentido de amor à pátria que faz com que famílias se orgulhem de mandar seus filhos à guerra, e pergunta: vocês viram as bandeiras da liberdade? De que cor elas são?. O som dos metais entoando uma canção militar abre para o verso sem rodeios de Young: Let’s Impeach the President. Por mentir; por espionar; por usar a religião para se eleger. A canção bem poderia ser a peça de acusação de Bush e Dick Cheney no Tribunal de Haia… Depois de derrubar o presidente, Neil sai à procura de um líder, em Lookin’ For a Leader, que possa reunir o azul e branco da bandeira antes que virem pedra. O disco termina com a balada Roger and Out e com America the Beautiful, odes ao que os EUA têm de bom, e uma declaração de amor ao país que, não obstante sua patologia social, produz também belas coisas. A última canção termina com uma intervenção comovente do coro, que lembra o que os negros fizeram com a música gospel americana e com a mundial: a inventaram.

Clique para baixar o CD

Disco: Living With The War (2006).

Compositores: Neil Young (com participações de Rick Rosa no baixo, Chad Cromwell na bateria e um côro).

Ritmo: Folk-rock com batida blues-country.

Assista o videoclipe de “Living With The War”:


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