Arquivo da categoria: Conto/História/Poesia

Um Conto, Uma História, Uma Poesia, para transformar o seu dia.

UM CONTO, UMA HISTÓRIA, UMA POESIA

TERESA

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

(Manuel Bandeira).

La Saeta

Disse uma voz popular:
Quem me empresta uma escada
para subir ao madeiro
para tirar-lhe os cravos
a Jesus o Nazareno?

Oh, la saeta, o cantar
ao Cristo dos ciganos
sempre com sangue nas mãos
sempre por desencravar
Cantar do povo andaluz
que todas as primaveras
anda pedindo escadas
para subir à cruz

Cantar da terra minha
que joga flores
ao Jesus da agonia
e é a fé de meus velhos
Oh! Não és tu meu cantar
não posso cantar, nem quero
a este Jesus do madeiro
senão ao que andou no mar!

Versão do poeta Antonio Machado de La Saeta que nas procissões da Semana Santa na região da Andaluzia, na Espanha, especialmente na cidade de Sevilha, é entoada por ciganos que cantam la saeta a cada estação da Via Sacra.

Aqui a tradução é de Maria Teresa Almeida Pina.

DICA CULTURAL DO OPERA MUNDI – O Estado, de vilão a salvador das pátrias, na revista Margem Esquerda

Do Opera Mundi

Lá para meados da década de 1990, não havia muitas dúvidas de que a economia ideal era a de livre-mercado, que a iniciativa privada era mais eficiente que o poder público para gerenciar produção e serviços, e que o Estado era um problema – não a solução – para o desenvolvimento. Hoje já parecem longe os dias em que uma aparência de consenso foi forjada em torno dessas ideias nos círculos acadêmicos, intelectuais, na imprensa e na gestão pública – o que quem continuou no campo crítico denominou de “pensamento único”.

A crise financeira iniciada em 2008 pôs em xeque o ideário neoliberal. Não só saíram menos abalados os países que tinham optado pelo fortalecimento do Estado em vez de sua redução, principalmente na proteção social e lastro da economia – como a maioria da América Latina, desde a “virada à esquerda” de 1999 a 2003 -, como os EUA e a Europa Ocidental tiveram de lançar mão do mesmo Estado antes demonizado para frear a rolada ladeira abaixo.

Os EUA praticamente estatizaram a General Motors, para impedir sua quebra e salvar empregos, enquanto a Europa nacionalizou bancos e injetou dinheiro público na economia. O receituário do Consenso de Washington, que se dizia racional e não ideológico, foi engavetado, iniciando a reabilitação teórica e prática das políticas de intervenção do Estado.

Consequência desse processo, o retorno do Estado é o tema da maioria dos ensaios do número mais recente da revista Margem Esquerda (Boitempo Editorial, 168 p., R$ 28,00), lançado este mês. Com textos de David Harvey, Michael Löwy, Marcio Pochmann, Luiz Bernardo Pericás, Anita Simis, Mauro Iasi, Plínio de Arruda Sampaio Jr., entre outros, a 15ª edição da publicação, criada em 2003, aborda aspectos políticos, econômicos e culturais desse resgate da ideia do Estado como fator positivo do desenvolvimento.

O dossiê temático abre com a transcrição de um discurso do vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, liderança política e intelectual do continente, que é um dos condutores desse processo político, de dentro do próprio Estado. Seu foco é a transição da forma do Estado, e não sua estabilidade, ressaltando que é na crise que as lutas populares têm maior potencial de transformação.

“Não basta derrubar a máquina do Estado para mudar o Estado, porque muitas vezes o Estado é unitário, são as ideias, os preconceitos, as percepções, as ilusões, as submissões interiorizadas que reproduzem continuamente a relação do Estado nas pessoas. Cada povo é a memória sedimentada de lutas do Estado, no Estado e para o Estado”, escreve García Linera.

Sobre o caso brasileiro, quem escreve é outro pensador que também participa da mudança do Estado de dentro dele. Como presidente do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) desde 2007, o economista Marcio Pochmann assiste diretamente a formulação de políticas públicas para o desenvolvimento, cuja direção foi alterada nos últimos anos. E é exatamente do papel estatal no desenvolvimento – como, por exemplo, no PAC, que o autor cita como “resgate da infraestrutura abandonada pelo neoliberalismo” – que trata seu artigo.

O aspecto cultural fica a cargo de Anita Simis, professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista) em Araraquara (SP) e, até o mês passado, presidente da Ulepicc (União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura). Ela analisa como a convergência digital, processo rapidamente apropriado pelo capital, tem estendido o entretenimento (e, portanto, na visão de Adorno, também o trabalho) a todo os espaços e tempos, na forma do celular usado como suporte para as indústrias culturais.

Homenagens

Margem Esquerda recupera ainda um texto de 1986 do filósofo francês Nicolas Tertulian que pinça momentos da preciosa correspondência entre dois expoentes do marxismo europeu, György Lukács e Ernst Bloch.

Entre as resenhas, bem a calhar, Plínio Jr. comenta A Crise Estrutural do Capital, do húngaro István Mészáros, e Iasi trata da nova obra da historiadora Virgínia Fontes, O Brasil e o Capital-Imperialismo: teoria e história. Já Antonino Infranca repete os clichês revisionistas ao tratar do livro de Domenico Losurdo sobre Stalin (Stálin – História crítica de uma lenda negra, Revan), embora alegue justamente abordar a figura histórica e não o indivíduo.

A edição traz homenagem ao filósofo francês Georges Labica, que morreu em 2009, escrita pelo jornalista português Miguel Urbano Rodrigu es, além de lembrar o falecimento do historiador franco-polonês Moshe Lewin, em agosto.

Outro in memoriam é dedicado ao escritor português José Saramago, falecido em junho. Embora a maioria dos textos seja de teoria e análise pesada, o número 15 traz logo na abertura uma conversa mais leve, mas não menos densa, na forma da entrevista que o escritor concedeu em 1992 a Ivana Jinkings, hoje editora da Boitempo e então uma militante comunista em viagem a Lisboa.

Além da saborosa introdução em tom de memória, que relembra o périplo percorrido para conseguir um encontro com Saramago, o diálogo registra ideias ao mesmo tempo céticas e otimistas de um pensador que transformou em fábulas as utopias do século XX.

(Pedro Aguiar)

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UM CONTO, UMA HISTÓRIA, UMA POESIA

O HORROR COTIDIANO DO ENTRETENIMENTO MIDIÁTICO

“(…) Muitos cidadãos acham que, confortavelmente sentados no sofá de sua sala de estar, vendo na telinha uma sensacional cascata de ventos com imagens muitas vezes fortes, violentas e espetaculares, podem informar-se seriamente. É um erro total.

Por três razões: primeiro, porque o telejornal, estruturado como uma ficção, não é feito para informar, mas para distrair. Depois, porque a rápida sucessão de notícias breves e fragmentadas (umas vinte por telejornal) produz um duplo efeito negativo de superinformação e de desinformação (há notícias demais, mas muito pouco tempo consagrado a cada uma delas). E, enfim, porque querer informar-se sem esforço é uma ilusão que depende muito mais do publicitário do que da mobilização cívica. Informar-se é cansativo, e é a este preço que o cidadão adquire o direito de participar inteligentemente da vida democrática.

Não obstante, muitos títulos da imprensa escrita continuam, por mimetismo televisual, adotando características próprias da mídia catódica: maquete da “primeira página do jornal” concebida como uma tela, extensão dos artigos reduzida, personalização excessiva de alguns jornalistas, prioridade do local sobre o internacional, excesso de títulos chocantes, práticas sistemática do esquecimento e da amnésia em relação às informações que já passaram da atualidade, etc. ‘Um dos problemas que se colocam de forma sensível em muitas redações – considera Patrick Champagne – é precisamente que, cada vez mais, a imprensa escrita adota o formato da mídia audivisual: ela privilegia os artigos curtos, coloca de modo astucioso para provocar. O equivalente do índice de audiência entrou na imprensa sob a forma do marketing editorial que se desenvolve com suas técnicas herdadas da publicidade para definir quais os assuntos que atraem o maior público possível. Raciocina-se em termos do maior número de leitores possível. A mídia audivisual tornou-se a mídia dominante”. Agora, as informações devem ter três qualidades principais: serem fáceis, rápidas e divertidas. Assim, paradoxalmente, os jornais simplificaram seu discurso no momento em que o mundo, transformado pelo fim da guerra fria e pela globalização econômica, complexificou-se consideravelmente”

(Ignácio Ramonet, A Tirania da Comunicação)

UM CONTO, UMA HISTÓRIA, UMA POESIA…

A Brigitte Bardot está ficando velha,
envelheceu antes dos nossos sonhos.

Coitada da Brigitte Bardot,
que era uma moça bonita,
mas ela mesma não podia ser um sonho
para nunca envelhecer.

A Brigitte Bardot está se desmanchando
e os nossos sonhos querem pedir divórcio.

Pelo mundo inteiro
têm milhões e milhões de sonhos
que querem também pedir divórcio
e a Brigitte Bardot agora
está ficando triste e sozinha.

Será que algum rapaz de vinte anos
vai telefonar
na hora exata em que ela estiver
com vontade de se suicidar?

Quando a gente era pequeno,
pensava que quando crescesse
Ia ser namorado da Brigitte Bardot,
mas a Brigitte Bardot
está ficando triste e sozinha

Brigitte Bardot, Tom Zé.

Um Conto, Uma História, Uma Poesia

Poema em Linha Recta

Álvaro de Campos

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

UM CONTO, UMA HISTÓRIA, UMA POESIA…

DOIS MOTORISTAS

Perguntado sobre o modo de trabalho de dois atores, o Sr. K fez esta comparação entre eles:

“Conheço um motorista que conhece bem as regras de trânsito, respeita-as e sabe recorrer a elas. Acelera habilmente, em seguida mantém uma velocidade uniforme, poupando o motor, e assim abre caminho entre os demais veículos, com audácia e cautela. Um outro motorista que conheço procede de maneira diferente. Mais que em seu caminho, está interessado no conjunto do trânsito, e dele se sente uma partícula. Não reclama seus direitos e não se destaca pessoalmente. Em espírito, dirige com o carro que vai na frente e com aquele que segue atrás, tendo um contínuo prazer no avanço dos carros e também dos pedestres”.

(Bertolt Brecht, As Histórias do Sr. Keuner)

UM CONTO, UMA HISTÓRIA, UMA POESIA…

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

Fernando Pessoa

UM CONTO, UMA HISTÓRIA, UMA POESIA…

Cortinas

Porque eu talvez tenha me dividido em viver o que não havia ainda vivido.
E antecipado o tempo, feito flor de ressentimento.
E porque muitas vezes visito o passado, criando afeto feito gado.
E porque lembro bem dos meus tempos de criança, sempre me surge esperança.
Quando eu já não agüento mais.
Me lembro dos tempos em que meu avô partia melancia:
A faca em sua mão desenhando as talhadas…
Eu sempre ganhava o miolo: a parte mais doce e suculenta.
Meu avô assim, me abria as cortinas da vida.

Alyne da Costa, Salvador.

UM CONTO, UMA HISTÓRIA, UMA POESIA…

Programa

Wilhelm Klemm (1915)

Não queremos poesia,
Queremos mágicas, artifícios,
Procuramos tapar na existência fatais vazios
E apesar de imenso esforço, uma atrofia.

Mas o que sabem vocês outros da secreta elevação,

Dos sagrados e histéricos soluços da garganta a chorar,
Quando, consumidos pelo haxixe da alma em imersão,
Beijamos o primeiro degrau, para além de cujo limiar
Os deuses moram?